Houve um tempo em minha vida em que escrever este
livro seria algo impossível. Durante os primeiros quinze anos do meu ministério,
fui um cessacionista. Esse termo se refere a alguém que crê que os chamados
dons milagrosos do Espírito Santo cessaram no primeiro século. A alegação de
que os dons de profecia, falar em línguas, cura, milagres, palavra de
sabedoria, palavra de co nhecimento e discernimento de espíritos cessaram é uma
visão abraçada por muitos integrantes da comunidade evangélica.
É importante que você saiba que eu não rejeitei o
cessacionismo porque testemunhei um milagre (embora saiba que para algumas
pessoas que me conheciam naquela época, minha mudança de paradigma teológico
poderia por si só ser chamada de um milagre!). Rejeitei o cessacionismo porque,
na solidão e na segurança do meu gabinete, convenci-me de que a Bíblia não ensinava
isso. O propósito deste livro não é descrever minha jornada teológica pessoal,
nem apresentar uma defesa da validade de todos os dons espirituais divinos nos
dias de hoje. Existem vários livros que fazem um trabalho admirável nessa área,
se é disso que você precisa.
Permita-me,
porém, compartilhar uma percepção crítica. Talvez a parte mais dolorosa dessa
mudança teológica específica tenha sido descobrir a razão primordial pela qual
durante muito tempo resisti aos dons do Espírito em sua plenitude. Além dos
argumentos bíblicos aos quais recorri, para ser bastante franco, eu ficava
envergonhado pela aparência e pelo comportamento em público de muitos daqueles
associados a dons espirituais. Eu não gostava da maneira como se vestiam. Não
gostava do jeito como falavam. Eu ficava ofendido por sua falta de sofisticação
e por sua extravagância arrogante. Ficava perturbado com sua falta de
consideração desrespeitosa pela precisão teológica e com suas demonstrações
excessivas de exuberância emocional.
Minha oposição aos dons espirituais também era
alimentada pelo medo — medo do emocionalismo, medo do fanatismo, medo do
desconhecido; medo de ser rejeitado por aqueles cujo respeito eu prezava e cuja
amizade eu não desejava perder; medo
do que poderia acontecer se eu entregasse
totalmente o controle da minha vida, mente e emoções ao Espírito Santo; medo de
perder qualquer pequeno statusconquistado na comunidade evangélica por meio do
meu trabalho.
Estou falando do tipo de medo que estimulava uma
agenda pessoal que me afastava de tudo que pudesse associar o meu nome ao de
pessoas que, segundo eu cria, eram um constrangimento à causa de Cristo. Eu era
fiel ao décimo primeiro mandamento do evangelicalismo bibliocêntrico: “Não
farás o que os outros fazem inadequadamente.” Em minha soberba, permitira que
certos extremistas exercessem mais influência sobre a forma do meu ministério
do que o texto das Escrituras. O medo de ser rotulado, conectado ou associado
de alguma maneira aos elementos “incultos” e “pouco atraentes” da cristandade
contemporânea exerceu um poder insidioso sobre minha capacidade e disposição de
ser objetivo na leitura da Bíblia Sagrada. Não sou tão ingênuo a ponto de
pensar que minha compreensão da Bíblia agora está livre de influências
subjetivas! Mas estou confiante de que pelo menos
esse tipo de medo não é mais uma influência.
A propósito, se tudo isso soar para você como a
arrogância e a hipocrisia próprias de uma pessoa para quem “estar certo” era a coisa
mais importante do mundo, você acertou.
- por Sam Storms
Livro:
DONS ESPIRITUAIS - um introdução bíblica, teológica e pastoral.
- por Sam Storms
Livro:
DONS ESPIRITUAIS - um introdução bíblica, teológica e pastoral.
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